A água mineral trocou de embalagem — e a conta é de plástico
Quinze anos de produção declarada mostram o garrafão retornável cedendo espaço para a garrafa descartável
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Quinze anos de produção declarada mostram o garrafão retornável cedendo espaço para a garrafa descartável
Data de Publicação
23 de setembro de 2026
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O Anuário Mineral Brasileiro classifica água mineral como substância mineral, e por isso ela aparece numa base de mineração. O efeito colateral é útil: é o único conjunto de dados públicos que registra, ano a ano e por estado, em que embalagem a água mineral brasileira foi vendida.
Isso transforma uma estatística de mineração em uma estatística de resíduo sólido. Garrafão de 20 litros é vasilhame retornável, usado dezenas de vezes. Garrafa plástica é PET de uso único, que entra na coleta no dia seguinte. A distinção não é de conforto do consumidor — é de quanto plástico chega ao aterro.
O deslocamento
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Figura 1
Entre 2010 e 2025 o garrafão caiu de 75,7% para 70,0% do volume nacional. A garrafa plástica subiu de 21,6% para 28,4% — 6,8 pontos percentuais.
Seis pontos percentuais parecem pouco. Não são: o volume total quase triplicou no período, de 5,9 bilhões de litros para 15,1 bilhões. Uma fatia maior de um bolo muito maior significa que o volume absoluto embalado em plástico de uso único cresceu bem mais rápido que o mercado.
Em 2025 o litro vendido em garrafão saiu a R$ 0,19; em garrafa plástica, R$ 1,34 — 7,2 vezes mais.
A leitura importa. O produto é o mesmo; o que se cobra é a conveniência da embalagem individual. Para o produtor, migrar volume do garrafão para a garrafa é multiplicar a receita por litro. O incentivo econômico aponta na direção contrária à do resíduo — e nada no preço faz o produtor pagar pelo destino da embalagem depois do consumo.
Um aviso: 2024 não aconteceu
Antes de usar esta série para qualquer coisa, é preciso olhar para 2024.
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Tabela 1: Volume nacional e participação do garrafão nos anos recentes
Ano
Volume (bi L)
Garrafão
Garrafa plástica
2022
13,9
75,8%
23,4%
2023
14,1
73,3%
25,3%
2024
18,1
60,4%
38,4%
2025
15,1
70,0%
28,4%
Em 2024 o volume nacional salta 28,9% e no ano seguinte cai -16,6%, voltando para perto do patamar de 2023. A participação do garrafão desaba e se recupera no mesmo movimento.
Consumo de água não se comporta assim. A causa está concentrada em um estado:
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sp |>filter(ano >=2022) |>transmute(Ano = ano, `Volume (bi L)`= bi) |>tabela_amb() |>fmt_br(`Volume (bi L)`, decimais =2) |> gt::fmt_number(columns = Ano, decimals =0, use_seps =FALSE)
Tabela 2: São Paulo: volume declarado de água mineral
Ano
Volume (bi L)
2022
3,39
2023
3,62
2024
6,40
2025
3,39
São Paulo vai de 3,62 bilhões de litros para 6,40 e volta a 3,39 — sobe 77% e retorna para abaixo de onde começou. Sozinho, o estado responde por cerca de 68% do salto nacional.
Isso é artefato de declaração, não de mercado. O AMB é montado a partir do Relatório Anual de Lavra, preenchido pela própria empresa, e a ANM reescreve os arquivos diariamente conforme chegam retificações. O ano de 2024 provavelmente ainda vai mudar — e quem citar o número de hoje como definitivo vai estar citando uma versão, não um fato.
A tendência de longo prazo sobrevive ao problema: ela aparece em quinze anos e não depende de nenhum ano isolado. O nível de qualquer ano específico, não.
Limites desta leitura
É produção declarada, não consumo. Água envasada em SP e bebida em GO conta como SP. A série não mede consumo estadual.
Não há preço deflacionado. Toda comparação de preço aqui é entre embalagens dentro do mesmo ano, o que dispensa deflator. Séries de preço ao longo dos quinze anos exigiriam IPCA e não foram feitas.
Zero é ambíguo. A grade é perfeita — 27 UFs × 16 anos, sem lacuna. Isso significa que “não produziu” e “não declarou” viram o mesmo zero.
Retornável não é reciclado. O garrafão tem vida longa, mas também vira resíduo. O dado não permite calcular massa de plástico — só volume de água por tipo de embalagem.
NotaReprodução
Dados: ANM, Anuário Mineral Brasileiro, snapshot de 2026-07-18. A ANM atualiza esses arquivos diariamente; o snapshot com checksum está versionado no repositório do projeto. Código em code/01_ler.R.