A água mineral trocou de embalagem — e a conta é de plástico

Quinze anos de produção declarada mostram o garrafão retornável cedendo espaço para a garrafa descartável

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Quinze anos de produção declarada mostram o garrafão retornável cedendo espaço para a garrafa descartável
Data de Publicação

23 de setembro de 2026

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O Anuário Mineral Brasileiro classifica água mineral como substância mineral, e por isso ela aparece numa base de mineração. O efeito colateral é útil: é o único conjunto de dados públicos que registra, ano a ano e por estado, em que embalagem a água mineral brasileira foi vendida.

Isso transforma uma estatística de mineração em uma estatística de resíduo sólido. Garrafão de 20 litros é vasilhame retornável, usado dezenas de vezes. Garrafa plástica é PET de uso único, que entra na coleta no dia seguinte. A distinção não é de conforto do consumidor — é de quanto plástico chega ao aterro.

O deslocamento

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rot <- share |> filter(ano == ANO_FIM)

p <- ggplot(share, aes(ano, pct, colour = grupo)) +
  geom_line(linewidth = 0.9) +
  ggiraph::geom_point_interactive(
    aes(tooltip = paste0("<b>", ano, "</b><br>", grupo, ": ",
                         n_br(pct, 1), "% do volume"),
        data_id = grupo),
    size = 2.2
  ) +
  geom_text(
    data = rot, aes(label = paste0(grupo, " ", number(pct, accuracy = 0.1, decimal.mark = ","), "%")),
    hjust = 0, nudge_x = 0.25, size = 3.4, fontface = "bold", show.legend = FALSE
  ) +
  scale_colour_manual(values = unname(PAL[c(2, 1, 3)])) +
  scale_x_continuous(breaks = seq(ANO_INI, ANO_FIM, 5), limits = c(ANO_INI, ANO_FIM + 5.5)) +
  scale_y_continuous(labels = label_percent(scale = 1, accuracy = 1), limits = c(0, 100)) +
  coord_cartesian(clip = "off") +
  labs(
    title = "O garrafão perde espaço para a garrafa descartável",
    subtitle = "Participação de cada embalagem no volume nacional de água mineral",
    caption = paste0("Fonte: ANM, Anuário Mineral Brasileiro (RAL). Snapshot de ", SNAPSHOT, ".")
  )

interativo(p, altura = 4.2)
Figura 1

Entre 2010 e 2025 o garrafão caiu de 75,7% para 70,0% do volume nacional. A garrafa plástica subiu de 21,6% para 28,4% — 6,8 pontos percentuais.

Seis pontos percentuais parecem pouco. Não são: o volume total quase triplicou no período, de 5,9 bilhões de litros para 15,1 bilhões. Uma fatia maior de um bolo muito maior significa que o volume absoluto embalado em plástico de uso único cresceu bem mais rápido que o mercado.

Por que o deslocamento acontece

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preco_plot <- preco25 |>
  filter(embalagem %in% c("Garrafão", "Garrafa plástica")) |>
  mutate(embalagem = factor(embalagem, levels = c("Garrafa plástica", "Garrafão")))

p <- ggplot(preco_plot, aes(rs_l, embalagem, fill = embalagem)) +
  ggiraph::geom_col_interactive(
    aes(tooltip = paste0("<b>", embalagem, "</b><br>R$ ", n_br(rs_l, 2), " por litro"),
        data_id = embalagem),
    width = 0.5
  ) +
  geom_text(aes(label = paste0("R$ ", number(rs_l, accuracy = 0.01, decimal.mark = ","), "/L")),
            hjust = 0, nudge_x = 0.03, size = 3.6, fontface = "bold", colour = TINTA) +
  scale_fill_manual(values = unname(PAL[c(1, 2)])) +
  scale_x_continuous(limits = c(0, max(preco_plot$rs_l) * 1.3)) +
  theme(panel.grid.major.y = element_blank(),
        axis.text.y = element_text(colour = TINTA, size = rel(1))) +
  labs(
    title = paste0("O litro em garrafa custa ",
                   number(p_plastica / p_garrafao, accuracy = 0.1, decimal.mark = ","),
                   "x o litro em garrafão"),
    subtitle = paste0("Preço médio de venda declarado, ", ANO_FIM),
    caption = paste0("Fonte: ANM, Anuário Mineral Brasileiro (RAL). Snapshot de ", SNAPSHOT, ".")
  )

interativo(p, altura = 3.2)
Figura 2

Em 2025 o litro vendido em garrafão saiu a R$ 0,19; em garrafa plástica, R$ 1,34 — 7,2 vezes mais.

A leitura importa. O produto é o mesmo; o que se cobra é a conveniência da embalagem individual. Para o produtor, migrar volume do garrafão para a garrafa é multiplicar a receita por litro. O incentivo econômico aponta na direção contrária à do resíduo — e nada no preço faz o produtor pagar pelo destino da embalagem depois do consumo.

Um aviso: 2024 não aconteceu

Antes de usar esta série para qualquer coisa, é preciso olhar para 2024.

Mostrar código
share |>
  filter(ano >= 2022) |>
  select(ano, grupo, pct) |>
  pivot_wider(names_from = grupo, values_from = pct) |>
  left_join(vol_ano, by = "ano") |>
  transmute(Ano = ano, `Volume (bi L)` = bi,
            `Garrafão` = Garrafão / 100,
            `Garrafa plástica` = `Garrafa plástica` / 100) |>
  tabela_amb() |>
  fmt_br(`Volume (bi L)`, decimais = 1) |>
  fmt_pct_br(c(`Garrafão`, `Garrafa plástica`)) |>
  gt::fmt_number(columns = Ano, decimals = 0, use_seps = FALSE)
Tabela 1: Volume nacional e participação do garrafão nos anos recentes
Ano Volume (bi L) Garrafão Garrafa plástica
2022 13,9 75,8% 23,4%
2023 14,1 73,3% 25,3%
2024 18,1 60,4% 38,4%
2025 15,1 70,0% 28,4%

Em 2024 o volume nacional salta 28,9% e no ano seguinte cai -16,6%, voltando para perto do patamar de 2023. A participação do garrafão desaba e se recupera no mesmo movimento.

Consumo de água não se comporta assim. A causa está concentrada em um estado:

Mostrar código
sp |> filter(ano >= 2022) |>
  transmute(Ano = ano, `Volume (bi L)` = bi) |>
  tabela_amb() |>
  fmt_br(`Volume (bi L)`, decimais = 2) |>
  gt::fmt_number(columns = Ano, decimals = 0, use_seps = FALSE)
Tabela 2: São Paulo: volume declarado de água mineral
Ano Volume (bi L)
2022 3,39
2023 3,62
2024 6,40
2025 3,39

São Paulo vai de 3,62 bilhões de litros para 6,40 e volta a 3,39 — sobe 77% e retorna para abaixo de onde começou. Sozinho, o estado responde por cerca de 68% do salto nacional.

Isso é artefato de declaração, não de mercado. O AMB é montado a partir do Relatório Anual de Lavra, preenchido pela própria empresa, e a ANM reescreve os arquivos diariamente conforme chegam retificações. O ano de 2024 provavelmente ainda vai mudar — e quem citar o número de hoje como definitivo vai estar citando uma versão, não um fato.

A tendência de longo prazo sobrevive ao problema: ela aparece em quinze anos e não depende de nenhum ano isolado. O nível de qualquer ano específico, não.

Limites desta leitura

  • É produção declarada, não consumo. Água envasada em SP e bebida em GO conta como SP. A série não mede consumo estadual.
  • Não há preço deflacionado. Toda comparação de preço aqui é entre embalagens dentro do mesmo ano, o que dispensa deflator. Séries de preço ao longo dos quinze anos exigiriam IPCA e não foram feitas.
  • Zero é ambíguo. A grade é perfeita — 27 UFs × 16 anos, sem lacuna. Isso significa que “não produziu” e “não declarou” viram o mesmo zero.
  • Retornável não é reciclado. O garrafão tem vida longa, mas também vira resíduo. O dado não permite calcular massa de plástico — só volume de água por tipo de embalagem.
NotaReprodução

Dados: ANM, Anuário Mineral Brasileiro, snapshot de 2026-07-18. A ANM atualiza esses arquivos diariamente; o snapshot com checksum está versionado no repositório do projeto. Código em code/01_ler.R.


Dados, código e ressalvas: anuario-mineral-brasileiro.

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